sábado, 27 de novembro de 2010

Entrevista com a professora Socorro

A professora Maria do Socorro trabalha com os circulos populares há 8 anos. Destes, 6 foram dedicados aos idosos. Só ela atende cerca de 200 senhores e senhoras na flor da boa idade. Logo no começo a percepção dos problemas típicos dessa fase foi seu primeiro desafio. Percebeu que a questão da mobilidade perdida com o passar do tempo, a diminuição dos reflexos e a perda do poder das articulações seriam um dos maiores focos do seu trabalho. O sedentarismo por sua vez o grande vilão, seguido diretamente da falta de relacionamento social, até mesmo com os familiares mais próximos. "Senti muito a questão da interrelacionalidade. Através da ginástica era possivel formar uma consciência social. Com o passar do trabalho, as atividades, os passeios, tudo foi mostrando o que cada grupo necessitava".


 Professora Socorro, por Tiago Pacheco

O trabalho com idosos é bem diferente do convencional. As oficinas deixam o educador muito à vontade pra criar. Normalmente o calendário de festas é seguido dando a temática de cada época. São João, Natal, Semana Santa. Daí então é misturada a metodologia, junto com danças de salão, jogos, etc... É possivel observar nos participantes mais recentes a dificuldade de efetuar coisas simples, como manusear uma bola. O que parece fácil para eles pode ser bem dificil, mas não impossivel. A professora começa devagar e vai desenvolvendo aos poucos. Primeiro pegar, agarrar, depois passar para o outro e receber. Depois disso eles são infomados que estão jogando e se sentem confiantes. Jogam basquete, futebol, vôlei, arremesso de pelotas e estafeta. Tudo adaptado de acordo com a idade e a construção realizada em conjunto com eles. Existem também as atividades externas, passeios organizados por eles e também pela prefeitura, como já foram ao Veneza Water Park e ao Cine São Luiz. Quando os grupos evoluem, eles mesmos se organizam e fretam os ônibus e tomam as decisões, sem influência dos professores. Fora isso fazem festas de aniversário, caminhadas e trazem temas da comunidade. Para a professora Socorro, o mais importante: "eles aprendem a se relacionar entre si". E também a se relacionar com o meio ambiente. Fazem fantasias, estandartes e pinturas utilizando materiais reciclados. O que começou como uma ginástica acaba virando um círculo de convivência.

Para a professora Socorro, tecnicamente é preciso trabalhar a mobilidade, as articulações, flexibilidade, reflexo e memória. Sempre são focados esses pontos na aula. Ao fazer a atividade, é explicado para que serve e esclarecida a necessidade de se exercitar não somente quando se fica velhp. Se começa-se a exercitar só quando chegam os 50, 60, 70 anos, é bem provável que o corpo vá sentir falta do preparo físico que teria se começasse aos 30 aou antes disso. Muitas coisas que para nós parecem simples de se fazer, para eles pode parecer impossivel: subir em um ônibus, cortar as unhas dos pés, fechar o sutiã sozinhas. Tudo isso pode precisar ser feito com a ajuda de alguém se não pensamos em melhorar o condicionamento físico antes disso.

Perguntei à professora o que ela pensa dos círculos populares e da atuação do governo municipal. Ela respondeu que têm a consciência de que se trata de um projeto político-pedagógico, mas que o considera primeiramente um projeto onde é feita uma construção da visão de si mesmos. Quando entrou nos círculos não gostava de política. Ao ter que estudar para transmitir aos seus alunos descobriu o quanto era "analfabeta" politicamente. É preciso fazer com que o pessoal idoso entenda que quando a velhice chega não é só "sentar numa cadeira de balanço e já viu, já deu". Esse projeto faz com que eles (os idosos) não se sintam excluidos e sim ativos e percebam que a experiência deles os delega o dever de estar na luta por melhorias e de ensinar aos mais novos o que eles sabem. Quanto ao governo municipal, é notório que houve uma melhoria após a gestão de João Paulo, houve um maior diferenciação da parte social voltada ao esporte e lazer. Antes somente o esporte de rendimento era visto. O projeto dividia uma sala na prefeitura com outras secretarias e agora tem a autarquia do geraldão que possibilitou o aumento pra mais de 60 o número de comunidades atingidas. Ainda é preciso melhorar muito, mas Socorro garante que nada está parado.
Como nem tudo são flores, a professora sente falta de uma estrutura definitiva. Todos os anos sente-se uma incerteza da continuidade do projeto, principalmente ao se aproximar das mudanças de governo. Se o projeto fosse algo estável e obrigatório talvez fosse melhor. Mas ela ressalta que talvez a estabilidade pudesse acomodar e mudar a dinâmica atual. "Não tem como saber se quem vai vir depois vai fazer igual, o que é preocupante". Durante as formações continuadas os novos participantes são instruidos a seguir as mesmas diretrizes atuais e vestir a camisa do CPEL.


Professora Socorro sorridente, por Tiago Pacheco

O resultado é um retorno pessoal e social de grandes proporções. Os números podem mostrar a abrangência social, mas só o brilho nos olhos da professora podem transmitir a verdade de quanto ela cresceu com as experiências dos outros, principalmente os mais velhos. Segundo ela, até mesmo o seu convívio familiar melhorou ao desenvolver seu trabalho. Os alunos são uma segunda familia para ela e dão suporte a melhorar "muito, muito mesmo como pessoa, em ação e atitudes".


Músicas animadas ajudam os idosos a exercitar a percepçao espacial

Movimentar o corpo para entrar em forma

Sempre respeitando as necessidades dos alunos

Exercicios de perna especialmente preparados para a turma

Brincadeiras com bola exercitam os reflexos e o trabalho em grupo

Os participantes ficam sempre atentos às explicações da professora